Reflexão · Turismo · Flores
Sazonalidade na Ilha das Flores: o desafio que molda anos, equipas e sonhos …
A época alta condensa-se entre julho e setembro. O resto do ano é uma equação de vento, meteorologia e resiliência.
Há perguntas que nos fazem regularmente, aqui na Experience OC. Uma das mais frequentes é: “A época turística na Flores cresceu?” É uma pergunta justa, e merece uma resposta honesta: não consigo confirmar que sim.
O que posso dizer é: A nossa realidade mudou de forma mais subtil. Nos últimos anos, passamos a ter algo que podemos chamar de época média — os meses de maio e junho e, dependendo das condições meteorológicas, também outubro. Não é época alta, mas é um extra. E esse extra faz diferença.
Mas antes de falarmos de meses e calendários, é preciso falar de vento. Aqui na Flores e no Corvo, o problema nem sempre é a falta de turistas, mas sim a impossibilidade de os receber. O vento, tantas vezes, não deixa o avião aterrar. E quando “a ilha fica fechada”, tudo fecha: hoteis, restaurantes, agências, experiências. É uma vulnerabilidade que não controlamos e que torna a época média tão incerta quanto promissora.
“O desafio não é só a duração da época, é gerir uma empresa durante meses em que a rentabilidade simplesmente não chega.”
A sazonalidade é, sem dúvida, um dos maiores desafios de gestão em qualquer negócio turístico. Mas numa ilha como as Flores, onde a época alta se condensa em apenas três meses: julho, agosto e setembro – esse desafio amplifica-se de forma exponencial.
Os desafios concretos que enfrentamos
- – Equipas que, em época alta, trabalham dias seguidos sem pausa, a dar resposta a uma procura concentrada e intensa;
- – Colaboradores que ficam meses sem conseguir gerar rentabilidade para a empresa, o que pressiona a sustentabilidade do negócio;
- – Planeamento de recursos humanos e financeiros numa janela temporal muito estreita;
- – Dependência de fatores externos, como por exemplo: meteorologia, acessibilidades, ligações aéreas que escapam por completo ao nosso controlo.
As nossas equipas são extraordinárias. Há alturas em que é preciso trabalhar por três, e fazem-no com dedicação e orgulho. Mas esta não é uma solução sustentável a longo prazo. A sazonalidade desgasta pessoas, desgasta estruturas, e obriga a uma criatividade constante na gestão que poucas outras realidades impõem.
A resposta, acreditamos que isto passa por duas frentes. A primeira é interna: continuar a investir em alargar a época média, criar razões para visitar a Flores em maio, em junho e em outubro. Desenvolver sereviços que façam sentido fora do verão, que celebrem a ilha em todas as suas faces e não apenas na do sol de agosto.
A segunda frente é externa, e aqui a responsabilidade não é só nossa. O Governo Regional e a Visit Azores — entidade que tutela o turismo no arquipélago — têm um papel determinante nesta equação. Acreditamos que é possível fazer mais, e melhor. Mas para isso, é essencial ouvir os operadores que vivem esta realidade no terreno, estudar destinos insulares por todo o mundo que já encontraram formas de mitigar a sazonalidade, e criar políticas que apoiem a sustentabilidade das empresas locais ao longo de todo o ano.
“Dependemos das políticas do governo regional e da Visit Azores. Mas não deixamos de acreditar que é possível construir um turismo mais equilibrado, mais justo, e mais duradouro na Ilha das Flores.”
Escrevemos este texto não para nos queixar, a Flores é uma ilha que escolhemos, que amamos, e cuja beleza singular é o motor de tudo o que fazemos na Experience OC. Escrevemo-lo porque acreditamos que nomear os desafios é o primeiro passo para os superar. E porque sabemos que não somos os únicos a senti-los.
Se trabalha no turismo das Flores ou do Corvo, se é um visitante que nos conhece, ou se simplesmente partilha a convicção de que estas ilhas merecem um futuro turístico mais robusto, este texto é também para si.
Categoria: Reflexões
Tags: Turismo · Sazonalidade · Ilha das Flores · Turismo nos Açores · Empresas locais · Sustentabilidade
